Dormir mal entra de vez na lista dos descuidos que levam ao diabete. Saiba como um descanso de qualidade é decisivo para prevenir e controlar a doença

Sono e diabete

Todo mundo sabe de cor as consequências imediatas de uma noite em claro ou com o sono todo picado. No dia seguinte, os olhos pesam, a cabeça dói, o trabalho ou o estudo não rendem… Quando isso acontece, na calada do corpo ocorre um desequilíbrio em uma série de hormônios. Só que, se essa bagunça interna vira rotina, a falta de repouso trará repercussões de médio e longo prazo: ganho de peso, aumento da pressão e, como sinalizam estudos, o aparecimento do diabete tipo 2. Esse é um alerta que deveria soar bem alto por aqui. O Brasil já ocupa o quarto lugar entre os países com mais diabéticos, atrás de gigantes como a China, a Índia e os Estados Unidos — segundo a Federação Internacional de Diabetes, somamos mais de 14 milhões de casos. Número que pode crescer se as pessoas continuarem a não dar tanto valor ao próprio sono.

Cientistas britânicos acabam de colocar o repouso inadequado na lista de fatores de risco para o mal do sangue doce, ao lado de dieta desregrada, sedentarismo e quilos a mais. Chegaram ao veredicto após investigar os hábitos noturnos de 59 mil mulheres de 55 a 83 anos. Aquelas que dormiam menos de seis horas encaravam uma probabilidade maior de ter diabete ou pré-diabete. Na análise, as voluntárias que passavam mais de dez horas na cama também mostraram maior propensão ao problema. “Se você fica muito tempo acordado, tende a comer mais, e geralmente prefere refeições rápidas e mais calóricas. Por outro lado, quando se dorme muito, o gasto de energia ao longo do dia tende a ser menor”, explica o endocrinologista Luiz Turatti, presidente da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD). Em ambos os casos, o ganho de peso e o sedentarismo ficam à espreita.

Mas não é preciso ser do tipo que assalta a geladeira na madrugada para entrar no perfil de risco para o diabete. Existem razões mais diretas que explicam o elo entre um sono em desordem e a decolagem da glicemia. O primeiro ponto é que dormir pouco ou mal (você até fica horas na cama, mas desperta a todo instante) desregula o nosso relógio biológico, que interfere no trabalho da cadeia hormonal e do sistema imune, bem como no desempenho de uma porção de órgãos. “Além de propiciar o descanso físico e cognitivo, as fases mais profundas do sono influenciam a liberação de hormônios relacionados ao controle da glicose no sangue”, conta o endocrinologista Rogério Silicani Ribeiro, do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo.

Em última instância, as noites maldormidas dificultam a atuação da insulina, chave para o açúcar ser aproveitado pelas células e virar energia para o corpo. Se isso se repete noite após noite, o organismo pode entrar em um estado chamado resistência à insulina, o preâmbulo para o diabete se instalar. E olha que esse efeito parece ser maior do que se pensava. Um experimento com cães recém-concluído no Cedars-Sinai Medical Center, nos Estados Unidos, revela que uma única noite em claro (só uma!) diminui em 33% a sensibilidade à insulina. O impacto seria maior do que manter uma dieta gordurosa por seis meses – a redução, nesse caso, foi de 21%. A pesquisa não foi feita com seres humanos, mas já deixa no ar um aviso, especialmente se a pessoa tem tendência ao diabete tipo 2. Com o tempo, o corpo não vence na tarefa de fabricar insulina para driblar a resistência ao hormônio. Aí o pâncreas cansa e a glicose fica permanentemente alta. Um doce perigo.

São várias vias alteradas que explicam como o sono irregular serve de atalho para a resistência à insulina. “A privação interfere na liberação de substâncias que controlam o apetite e o gasto energético”, exemplifica a endocrinologista Denise Costa, do Hospital Barra D’Or, no Rio de Janeiro. Também deixa o organismo sob tensão, despejando cortisol, o hormônio do estresse, outro sabotador do aproveitamento da glicose. Gabriel Anhê, professor de farmacologia da Universidade Estadual de Campinas, estuda ainda a participação da melatonina, elemento que embala o repouso noturno e ajuda a reparar os tecidos, nessa história. “Uma das funções desse hormônio é sensibilizar as células à ação da insulina”, esclarece. “Há evidências de que tanto pessoas que dormem pouco ou trocam o dia pela noite como diabéticos do tipo 2 produzem menos melatonina”, relata.

Sim, o corpo não cansa de dar justificativas para zelar pelo sono. E isso não vale só na prevenção do diabete. Quem já convive com ele depende de boas noites de descanso para domar o açúcar no sangue. Nesse caso, a tarefa costuma ser mais complexa por causa de fatores associados à doença, como obesidade e apneia do sono, ou decorrentes do problema, como crises de hipo ou hiperglicemia na madrugada. “Muitas vezes, essas pessoas ainda apresentam algum transtorno emocional que afeta o sono e prejudica o tratamento”, diz a endocrinologista Adriana Mendes, da Universidade Estadual Paulista, em Botucatu. Tudo isso reforça a necessidade de estreitar a conversa com o médico. “E, de nossa parte, de sermos mais investigativos e cautelosos em relação à qualidade do sono do paciente”, avalia Turatti.

Em busca do sono perdido

Está se lembrando com pesar das noites em que caiu na festa ou mergulhou numa madrugada de trabalho? Calma, não precisa entrar em paranoia. Tenha em mente que a ameaça ronda quem boicota o sono (ou é vítima de uma insônia) rotineiramente. E, claro, a predisposição genética, o excesso de peso e outros maus hábitos influenciam muito em um desfecho com a glicemia fora de órbita. Como ninguém quer que as noites se tornem a gota d’água para o problema, convém deixá-las reservadas, pelo menos durante a semana, para o pregar dos olhos. E, se derrapou em alguns dias, não há nada que uma desintoxicação do sono não reverta. De acordo com pesquisadores da Universidade de Chicago, nos Estados Unidos, duas noites de descanso estendido ajudam a sensibilidade à insulina voltar ao normal. Eis uma notícia que vai tirar a culpa de muita gente que acorda mais tarde aos sábados e domingos.

Só fique ligado quando o cansaço e os bocejos nunca parecem ter fim. Pode ser o momento de procurar um especialista. Insônia pra valer, não se esqueça, é uma condição que merece acompanhamento e tratamento médico. Embora o consenso diga que o merecido repouso para adultos deve ter entre sete e oito horas por noite, a neurologista Rosa Hasan, do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo, pondera que essa média nem sempre é precisa. Há gente que tem de dormir mais… outras, menos. “O sono é de qualidade quando o indivíduo acorda disposto e permanece assim ao longo do dia”, afirma.
Para que esse selo de qualidade seja concedido, é importante avaliar se o travesseiro e o colchão estão ok, bem como desligar lâmpadas e sons no quarto. Também se recomenda não mexer em celulares ou tablets antes de ir para a cama, porque a luz das telas inibe a melatonina e atrasa a chegada do sono, e evitar encher a pança nos minutos que antecedem a hora de se deitar. Vale a pena vencer as tentações. O bom sono de hoje é a garantia de um dia seguinte mais disposto — e de uma saúde com doçura na medida certa.

A má influência dos roncos

A Academia Americana de Medicina do Sono estima que sete entre dez diabéticos do tipo 2 também sofrem com a apneia obstrutiva do sono, problema marcado por ruídos e pausas na respiração enquanto o indivíduo dorme e que, se não tratado, pode piorar o controle glicêmico. Assim como odiabete, a apneia é mais comum em pessoas acima do peso. Durante o sono, a musculatura da garganta relaxa e acaba tampando temporariamente a passagem de ar. O tratamento inclui desde perda de peso a um aparelho que regula o fluxo de oxigênio, o CPAP.

O pesadelo da hipoglicemia

Um erro na dose do medicamento ou uma alimentação inadequada podem deixar o organismo do diabético confuso e causar uma queda brusca na glicose, situação que é dedurada por sinais como suor frio, tremores, fraqueza e sonolência. O drama é que esse quadro pode ocorrer no meio da noite, e é raro o sujeito despertar por causa dos sintomas — um perigo, se pensarmos que hipoglicemia chega a levar ao coma. “Daí a importância de, orientado pelo médico, o paciente ajustar a rotina e o tratamento e fazer o controle da glicemia antes de ir para a cama ou, se necessário, até de madrugada”, diz Luiz Turatti, da SBD.

Ligue os pontos

As vias, diretas e indiretas, que fazem um sono ruim abrir caminho ao diabete

Alterações hormonais
Não dormir direito desgoverna os níveis de uma porção de hormônios que atuam no balanço energético, o que, no fim, dificulta o uso de glicose pelas células.

Sedentarismo
Noites de briga com o travesseiro tiram a disposição para se exercitar. Por outro lado, dorminhocos têm menos tempo e ânimo para malhar. E a inatividade sopra a favor do diabete.

Alimentação desregrada
Pessoas que trocam o dia pela noite ou não descansam a contento tendem a abusar de comidas calóricas – sem contar os ataques noturnos à geladeira.

Ganho de peso
Dormir mal reduz a liberação dos hormônios da saciedade. Mais fome ao longo do dia pode resultar em quilos extras, outro parceiro do diabete.

 

 

FONTE: Mdemulher

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