Numa “tarde” boa “demai da conta”, “sô”, o dialeto e sotaque caipiracibanos se tornaram quinta-feira (25) patrimônio imaterial de Piracicaba oficialmente. A assinatura do decreto de registro desta linguagem peculiar como um bem a ser preservado aconteceu em cerimônia realizada no Engenho Central. Autoridades e “guardiões” da cultura piracicabana participaram do evento. A abertura da solenidade foi com a apresentação da música Rio de Lágrimas, que faz referência ao rio Piracicaba, dedilhada por Toninho da Viola. Na sequência, representantes do poder público municipal compuseram a mesa do encontro.
Estiveram no local o prefeito Gabriel Ferrato, a secretária municipal da Semac (Secretaria Municipal da Ação Cultural), Rosângela Camolese, e o procurador-geral do município, Mauro Rontani, que preside o Codepac (Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Piracicaba). Ao lado deles estavam o jornalista e escritor Cecílio Elias Netto, autor do Dicionário do Dialeto Caipiracicabano Arco, Tarco, Verva…, livro que reúne expressões típicas dos piracicabanos, e o presidente da APL (Academia Piracicaba de Letras), o professor doutor Gustavo Jacques Dias Alvim. Este último, como representante da APL e das outras três instituições culturais de Piracicaba responsáveis pela proposta, IHGP (Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba), Icen (Instituto Cecílio Elias Netto) e Apap (Associação Piracicabana de Artistas Plásticos).
Durante a cerimônia se apresentaram, também, os cururueiros Dirceu Chiodi e Jonata Neto e o poeta Marcha Lenta, que declamou o poema 1º de Agosto, em homenagem aos 249 anos de Piracicaba. “Julgo este momento como muito importante para a cidade. Um povo que não tem memória não tem futuro. Não se entende uma cidade e não é possível nem governá-la se não tivermos clareza de suas raízes. A linguagem identifica um povo”, declarou Ferrato. “Não havia nenhum registro de patrimônio imaterial na cidade ainda, portanto, os conselheiros do Codepac fizeram um trabalho muito significativo para a alteração da lei do tombamento, que até então só tornava patrimônio cultural bens materiais imóveis e alguns móveis”, falou Rosângela.
Rontani contou que, em princípio, ao receber o pedido para o registro, ficou assustado. Após cinco meses de trabalho para reunir materiais que atestam a importância disso, obteve-se um “arcabouço cultural”. “O que no passado foi tido como pejorativo hoje é orgulho”, comentou, finalizando seu discurso com um pedido pertinente. “De ‘jeito manera’ ‘vamo’ ‘dexa’ a ‘curtura’ ‘morrê’”, disse, ipsis litteris.
FONTE: Jornal de Piracicaba
















