7 dicas simples para consumir moda de um jeito mais consciente

Em maio passado uma reportagem publicada no site Universa, da UOL, revelou casos de racismo, gordofobia, assédio moral e violações de leis trabalhistas dentro de unidades da Loja Três, marca carioca conhecida por levantar bandeiras em prol da diversidade e sustentabilidade em suas campanhas e coleções desde o seu surgimento, há seis anos.

O texto viralizou nas redes sociais, e o debate em torno da moda sustentávelsob diferentes esferas, principalmente dentro de uma sociedade pautada pelo consumo, voltou à tona, despertando um importante questionamento.

Afinal, é possível que marcas e consumidores atuem de maneira 100% sustentável?

Antes de mais nada, é importante entender que consumir, o que quer que seja, sempre vai gerar algum tipo de impacto no meio ambiente, explica Ana Soares, consultora de estilo e criadora do Moda Pé no Chão, rede de apoio focada em desconstruir padrões da moda usando exemplos do cotidiano.

Carla Lemos, consultora de imagem, jornalista de moda e criadora do blog Modices, segue a mesma linha: “A indústria da moda não é sustentável, ela explora seus trabalhadores. Não tem como nenhuma marca garantir que há nenhum tipo de exploração social ou ambiental nos seus insumos. Quando transformam estes valores de responsabilidade social e ambiental em estratégia de marketing, acontece esse tipo de coisa que aconteceu com a ‘Três’: a decepção e o total esvaziamento de significado destas questões”, diz.

O que fazer, então?

Por parte das empresas, é preciso compreender que ser sustentável, hoje em dia, não é mais um diferencial, mas praticamente uma obrigação. “Hoje é imprescindível a marca olhar pra dentro e fazer o que prega, não apenas na propaganda, mas rever e prestar atenção em todos os seus processos internos também. O mais importante é observar novos caminhos, novas possibilidade e iniciativas acontecendo, atendendo à pressão do consumidor. Aos poucos esse novo comportamento se normaliza”, opina Silvia Scigliano, Vice-Presidente da AICI Brasil (que no próximo sábado, 8, promove o Seminário Internacional de Consultores de Imagem).

Giovanna Nader, consultora de branding e marketing e sócia-fundadora do Projeto Gaveta (ação que incentiva que as pessoas troquem roupas usadas entre si), também enxerga algumas alternativas que podem ser colocadas em prática pelas marcas.

“É impossível a moda ser 100% sustentável. São muitas cadeias, são muitos passos. Para que isso aconteça, as empresas vão ter que abrir mão de algumas coisas, porque ser sustentável não significa, necessariamente, ter um retorno lucrativo. Então eu acho que, sim, elas podem reduzir seus impactos no mundo. Podem ter produções mais conscientes, podem ter representatividade, inclusão, que era o que a Loja Três tentava fazer, mas não acontecia de fato”, diz, em entrevista ao MdeMulher.

Já para as consumidoras, a principal dica é olhar para o próprio dia a dia e tomar pequenas atitudes que vão acabar mudando bastante o jeito de enxergar a moda: o conceito dos ‘6Rs’ ecológicos – Repensar, Reutilizar, Reparar, Reduzir, Reciclar e Recusar – cai como uma luva por aqui.

Para te ajudar, reunimos, com auxílio das quatro especialistas acima, sete medidas possíveis para quem deseja consumir peças de roupas e acessórios de maneira mais consciente.

1. Comprar menos e melhor

Antes de mais nada, tenha em mente que a principal medida é comprar menos – simples assim. Como? Fazendo o exercício de se questionar constantemente, evitando agir por puro impulso: você realmente precisa daquela peça? Ela vai fazer diferença quando combinada ao que você já tem em casa? Você se vê usando essa peça com frequência?

Já para ‘comprar melhor’, é importante entender quais tipos de roupa têm, de fato, a ver com o seu estilo e com o seu tipo físico, o que vai fazer com que você passe a comprar peças que realmente vai usar. Não tenha medo de recusar tendências datadas, ou roupas que não vão fazer a menor falta no seu guarda-roupa.

Procure por tecidos que agridam menos o meio ambiente (leia sempre as etiquetas!), por peças que são confeccionadas com o uso de materiais biodegradáveis, e priorize pequenos produtores (as). Outra medida acessível é, ainda, procurar por marcas que realizam o chamado upcycling – quando resíduos, retalhos e até roupas já usadas são transformados em novos – alternativa mais barata para quem quer comprar de marcas com selo sustentável.

“Não se deixar levar, também, por propagandas e coleções de marcas que lançam novidades o tempo inteiro. Ninguém tem tanto pique/dinheiro para acompanhar inúmeras novidades o tempo todo”, sugere Ana.

2. Usar o conceito do guarda-roupa cápsula a seu favor

Para Ana, ter um guarda-roupa cápsula é, basicamente, usar o autoconhecimento para montar um armário mais conciso, com peças que combinam entre si e fazem sentido com a sua realidade, evitando excessos. Para colocar a ideia em prática, é válido entender que um número mais enxuto de peças de vestuário é suficiente para que você consiga usar diferentes looks.

Não, não existem regras, mas se você é do tipo superorganizada, Silvia descreve o que é preciso ter no closet para montar um guarda-roupa cápsula (experimente muito, e mude as combinações sempre que der, tá?):

“Três partes de baixo (que podem ser duas calças e uma saia), quatro partes de cima (entre blusas, camisas e camisetas) e três terceiras peças (jaquetas, blazers, cardigans ou coletes), que combinem entre si. Dessa maneira, você terá até 48 looks. Escolha um ou dois tons mais vibrantes, ou uma ou duas estampas em cada cápsula, desde que elas tenham um link entre elas”, sugere a profissional.

3. Investir em peças de brechós

Moda sustentável não é sinônimo de roupas caras, viu? A melhor maneira de fugir dos preços elevados é começar a frequentar brechós e bazares, sem preconceito. Giovanna, que conta fazer questão de não comprar mais roupas novas há um bom tempo, enxerga muito mais alma e significado em peças de segunda mão do que nas recentemente lançadas por marcas. Por isso é tão importante que você esteja aberta à experiência proporcionada pelos brechós:

“Roupas de brechós são infinitamente mais baratas do que roupas novas. Existem os brechós de luxo, que são caríssimos, mas se você vai garimpar em brechós mais tranquilos, bazares organizados por ONGs e igrejas, as roupas são muito mais baratas, nem se compara. As peças não ‘pulam’ até você no brechó, você tem que ir até elas, e é por isso que a parte do garimpo acaba também sendo uma diversão. Mas você tem que entender que as roupas já foram usadas, então pode ser que elas tenham algum defeito, alguma manchinha de uso, e isso não é, necessariamente, algo ruim”, diz.

Tenha paciência, vá com tempo livre e, se você for do tipo que não curte sair, busque pelos brechós online, com diversas peças seminovas, como sugere Silvia. Observe os detalhes das peças, prove e não se deixe levar apenas pelos preços baixos.

Ah! E cuidado com o consumismo, inclusive em brechós. Não adianta se empolgar com a qualidade das roupas e preços acessíveis, e acabar levando para casa muito mais do que você precisa.

4. Repetir looks sem culpa nenhuma

Ative o modo Kate Middleton – se até uma duquesa repete as roupas sempre que pode (por motivos variados que não vêm ao caso agora), por que você não pode fazer o mesmo? Silvia explica que essa ideia de que mulheres ‘não podem’ usar as mesmas peças com frequência, principalmente em eventos mais formais, foi algo instituído lá no século XIX, quando as damas da corte não podiam repetir os vestidos, ideia criada para aumentar o consumo de tecidos e aquecer a economia. Para ela, a mudança começa na gente, mostrando que é necessário repetir looks, e até bom influenciar quem convive com a gente a fazer disso um hábito.

“Sem contar que vivemos em uma sociedade extremamente machista, que coloca mulheres como fúteis por gostarem de compras e maquiagem, por exemplo. Somos julgadas por tudo, repetindo roupa ou não. Então, a ideia é que mudemos esse modo de agir e cobrar de outras mulheres, entendendo que repetir roupa não é algo negativo, e que dá pra variar o estilo só com mudança de acessórios, por exemplo”, completa Ana.

5. Trocar, revender e compartilhar suas peças com amigas/os e familiares

Existem diversos sites, grupos nas redes sociais e projetos que incentivam a venda daquelas peças que estão encostadas há tempos no seu armário. Quando você estiver precisando juntar uma graninha extra, ou se você notou que tem coisa demais em casa, pratique o desapego sem pensar duas vezes – para isso, priorize peças em bom estado, tá?

Outras ideias giram em torno das trocas de roupas entre amigas, amigos e familiares, além da possibilidade de usar os serviços de guarda-roupa compartilhado. Neles, basta pagar uma taxa mensal para pegar emprestado um determinado número de peças, como um aluguel, sem precisar lotar o armário.

Aqui entra, também, a boa e velha doação de roupas, que pode ser feita periodicamente (uma vez por ano, a cada seis meses) ou sempre que algo novo entrar no seu armário. Comprou uma blusinha nova? Doe uma peça antiga que caiu em desuso. Não resistiu e investiu em dois pares de sapatos de uma só vez? Dê outros dois para quem está precisando.

6. Reformar e customizar (sozinha ou com auxílio de profissionais)

Caso você mande bem na arte do faça você mesma, Silvia sugere que você se jogue nos tutoriais de DIY do YouTube e comece a customizar aquelas roupas que você não usa mais, mas ainda não está pronta para se desfazer delas, ou as que você ‘roubou’ da mãe, da avó, do irmão e precisam de ajustes. Dá para aplicar patches em jaquetas, encurtar barras de calças, mexer no comprimento de vestidos… as possibilidades são infinitas.

E tudo bem se você não dominar trabalhos manuais, mas lembre-se de que isso não é motivo para deixar de reformar peças antigas. Recorra e valorize o trabalho de costureiras (com certeza tem alguma aí pelo seu bairro), que podem criar peças sob medida, com um preço muito mais acessível do que os de roupas novas de lojas, sempre entendendo e respeitando o processo criativo delas – “isso nos leva a entender que vestir-se é planejamento”, fala Ana.

7. Questionar

Por fim, questione. Carla fala sobre cobrar posicionamento e responsabilidade social e ambiental de marcas que você já consome, que já atendam às suas necessidades. ‘E não ficar procurando por marcas que usem esse discurso como marketing, para acabar se desiludindo, como aconteceu com a Três’, diz. Já Ana enxerga ser necessário que a gente não coloque o consumo como símbolo de status, buscando mais marcas que realmente apresentem relatórios de sustentabilidade, que mostrem na prática o que elas fazem para não poluírem, que a cadeia de produção é remunerada de forma justa, ou que, como já dissemos, não lancem tantas coleções ao ano.

“[A Loja Três] Foi um caso que veio à tona, mas isso acontece muito mais do que a gente imagina. Eu vim do mercado da moda, ele ainda é muito opressor, e o que acontece muitas vezes fica ali, dentro da empresa: os funcionários são explorados, estão trabalhando em ambientes insalubres, os escritórios não têm janelas, há modelos sofrendo gordofobia (…) O caso da Loja Três mostrou muito pra gente que não vale só o que diz a marca, a gente tem que entender mais a fundo como é que acontece essa sustentabilidade, em todas as cadeias dela. Acho que a gente tem que ser mais questionador”, finaliza Giovanna.

 

FONTE: Mdemulher