Entre acordos, debates acalorados, cotoveladas, divergências setoriais e muitas dúvidas da população, a Reforma da Previdência está caminhando. Na semana passada, o texto-base da polêmica mudança foi aprovado na Câmara dos Deputados, com 379 votos a favor e 131, contra. Mas as discussões em relação a outras mudanças no texto (os chamados destaques) se estenderam no plenário federal.
E o desejo do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), de votar o segundo turno, não se concretizou. Agora, o Congresso entrará em recesso nesta quinta-feira (18), e a votação deve ocorrer somente no início de agosto. Se o projeto passar na Câmara, avançará para análise no Senado, no segundo semestre.
Nesta semana decisiva para os rumos do Sistema Previdenciário, a Gazeta conversou com lideranças da cidade para saber o que pensam sobre o andar da carruagem. O presidente em exercício da Associação Comercial e Industrial de Piracicaba (Acipi), Marcelo Delfini Cançado, ficou “feliz e surpreso” com a quantidade de votos favoráveis à Reforma.
Eram necessários 308 votos na Casa, o equivalente a três quintos dos deputados para a aprovação em primeiro turno. “Foi um grande passo para a volta dos investimentos no País, pois muitas empresas ainda estão receosas e estancando seus investimentos. A partir dessa aprovação, acho que os empresários começarão a olhar o País com outros olhos”, declarou.
Na opinião de Homero Scarso, gerente-regional do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp), de Piracicaba, “foi dado um passo importante para o aumento na confiança em relação à Economia, bem como na atração de investimentos”. A aprovação também representa uma “sinalização para um melhor equilíbrio das contas públicas”, acrescentou.
Outro dirigente que também acredita na possibilidade de retomada da confiança da classe empresarial, e reflexos positivos na Economia, é Roberto Chamma, o presidente do Sindicato das Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas, de Material Elétrico, Eletrônico, Siderúrgicas e Fundições de Piracicaba, Saltinho e Rio das Pedras (Simespi).
“O objetivo da Reforma é desenvolvermos uma Previdência mais igualitária e, acima de tudo, desonerar os cofres públicos. Espero que a sua aprovação na Câmara seja sinônimo de que nosso País finalmente está entrando nos trilhos. É claro que ainda há muito trabalho pela frente, como investimentos em Infraestrutura, liberação do crédito para as empresas e, é claro, a melhora em questões básicas como Saúde e Educação. Mas nada pode ser realizado enquanto não houver a contenção da dívida pública e dinheiro no caixa. Para isso, a Reforma da Previdência é o começo, apesar de seus efeitos serem sentidos apenas a médio/longo prazo”, avaliou Chamma.
O sinal verde preliminar, dado na semana passada, pelos parlamentares, já vai ajudar a desengavetar alguns projetos de investidores, acredita o presidente em exercício da Acipi.
“Acho que grandes empresas já tinham projetos na ponta da agulha. Claro, não sei dizer se elas vão investir tudo, mas penso que vai haver a geração de empregos e a Economia vai voltar a girar, embora não do jeito que deveria. A Reforma é uma medida necessária e urgente. Mas a nossa expectativa e ansiedade são, sem dúvida, maior do que o governo realmente consegue concretizar de mudanças”, disse Cançado.
“Para a classe empresarial, a Reforma mais urgente é a Tributária. Os pesados impostos brasileiros são um peso nas costas dos empresários, e muitas indústrias não conseguem sobreviver por causa disso. O modelo dos tributos nacionais deve ser remodelado para que nossa Economia tenha alguma chance de se fortalecer”, observou Roberto Chamma, do Simespi.
Olhar sindical
‘Araque aos trabalhadores’
Já o presidente do Conselho das Entidades Sindicais de Piracicaba (Conespi), Wagner da Silveira, o Juca, vê a aprovação do texto de outra perspectiva. Na opinião do líder sindical, “deputados federais, ligados ao governo e ao chamado ‘Centrão’, estão praticando um atentado contra os trabalhadores”.
“Na prática, é a chamada ‘Política Robin Hood’ às avessas. Diferente da lenda de Robin Hood, que viveu na Inglaterra, na floresta de Sherwood, em que o herói roubava a nobreza para dar aos pobres, esta Reforma da Previdência Social é para tirar dos pobres e dar para os ricos. Enfim, deixa de cobrar dos ricos, das grandes empresas que não pagam o que devem à nossa Previdência Social”, avaliou Juca.
Os setores contrários, disse Juca, continuarão pressionando na votação no segundo turno e no Senado Federal. Segundo ele, somente dessa forma será possível aliviar “o ataque aos trabalhadores, que terão muito mais dificuldade de se aposentar, além de ver reduzido o valor de uma futura aposentadoria”.
“Não tem como todos conseguirem trabalho até os 65 anos de idade, no caso do homem, e 62 anos de idade, no caso das mulheres. Por isso, se for mantido como foi aprovado, com certeza, estamos criando um país de miseráveis”, afirma.
Juca observou que, nas contas do governo federal, a Reforma da Previdência vai gerar uma economia de R$ 1,164 trilhão em 10 anos, dos quais R$ 1,072 trilhão derivados de alterações das regras para a população civil, R$ 13,8 bilhões com servidores da União e R$ 92,3 bilhões com os militares das Forças Armadas.
“Inclusive para estes (militares) a Reforma já aliviou, juntamente com os deputados que não têm compromisso com os trabalhadores”, declarou o presidente do Conespi e do Sindicato dos Metalúrgicos de Piracicaba.
“Como se vê, a Reforma do governo Bolsonaro quer levantar quase R$ 1 trilhão nas costas dos trabalhadores. Enfim, dos mais pobres que têm renda mensal de aproximadamente R$ 1,3 mil mensais. Estão de brincadeira com os trabalhadores e vamos denunciar estes deputados federais”, disparou.















