A cada ano, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) nos convida, por meio da Campanha da Fraternidade realizada tradicionalmente durante o tempo da Quaresma (quarenta dias que antecedem a Páscoa) para uma reflexão sobre temas que tocam profundamente a realidade da população. Anualmente, um tema é escolhido para mobilizar a fé e a ação em torno de questões urgentes.
Em 2026, o tema escolhido “Fraternidade e Moradia” traz à tona a reflexão sobre o acesso à moradia digna como direito humano fundamental e expressão concreta de fraternidade e justiça social.
O tema ainda expressa o direito básico de cada trabalhador e trabalhadora de ter um lugar seguro para viver com sua família. Defendemos que programas habitacionais priorizem as famílias trabalhadoras e que haja participação popular na definição dessas políticas.
Para milhares de brasileiros, o sonho da casa própria permanece distante, já que ainda há moradias precárias, pessoas pagando aluguéis abusivos ou residindo em áreas sem infraestrutura adequada.
A casa é mais do que um endereço: é espaço de vida, dignidade, convivência e futuro.
A moradia não é um privilégio — é um direito social garantido pela Constituição. No entanto, sabemos que, na prática, esse direito ainda não se concretizou plenamente para a classe trabalhadora. A campanha propõe que a casa seja vista como um bem comum e um elemento estruturante da cidadania plena, e não apenas como uma mercadoria sujeita às dinâmicas do mercado imobiliário.
É preciso estimular a participação envolvendo movimentos sociais, universidades, autoridades públicas e privadas em debates e iniciativas que garantam políticas efetivas de acesso à moradia.
Os números mais recentes sobre quantos brasileiros não têm casa própria vêm principalmente de levantamentos oficiais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) – principal agência de estatísticas do Brasil e de estudos de déficit habitacional.
Segundo o Censo Demográfico 2022 do IBGE, aproximadamente 27,3% da população brasileira não vivia em imóveis próprios (isto é, morava em aluguel, em casas cedidas ou outras condições).
20,9% vive em domicílios alugados;
5,6% vive em casas cedidas ou em prestadas e
0,8% em outras formas de ocupação.
Isso indica que aproximadamente 1 em cada 4 brasileiros não vive em casa própria registrada.
Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD Contínua) mostram que a proporção de brasileiros pagando aluguel aumentou nos últimos anos — em 2024 eram cerca de 23% dos domicílios.
Isso reforça a ideia de que um número relevante de brasileiros ainda não conseguiu adquirir seu imóvel.
Falar de fraternidade, nesse contexto, é falar de solidariedade concreta. É compreender que a luta por moradia digna não é individual, mas coletiva. É papel do Estado é promover políticas habitacionais eficazes, mas também é nosso papel, enquanto sociedade organizada, pressionar, dialogar e construir alternativas. Os sindicatos, historicamente, sempre estiveram na linha de frente das lutas sociais, e não podemos nos omitir diante de um problema tão urgente.
Ao centrar a discussão na moradia digna, a CF 2026 rompe com a visão tradicionalmente individualista ou mercadológica do acesso à casa e coloca em evidência a necessidade de políticas públicas mais robustas e inclusivas e de uma maior solidariedade social. O debate mobiliza diferentes setores da sociedade — religiosos, civis e governamentais — para pensar soluções sustentáveis e justas.
Que este tempo de reflexão nos impulsione à ação concreta, para que cada trabalhador e cada trabalhadora possa abrir a porta de sua casa com a certeza de que ali existe segurança, respeito e esperança.
Porque onde há moradia digna, há família fortalecida. Onde há família fortalecida, há comunidade unida. E onde há comunidade unida, há força para transformar o Brasil em uma nação mais justae verdadeiramente fraterna.
Artigo: Wagner da Silveira (Juca) presidente do Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos de Piracicaba e Região
















