Se vende, recebe. Se não vende, não recebe. A lógica é simples, mas as contas são complicadas e variam de um período para outro. Tal situação reflete a realidade dos trabalhadores autônomos e seus problemas na questão de equilíbrio financeiro.
Diferente de empregados celetistas e servidores públicos, eles não têm renda fixa e precisam de certas precauções para se manterem economicamente estáveis.
Ademar Augusto (foto), de 61 anos, possui uma microempresa de venda de peças automotivas há dez anos e convive com a mesma dificuldade dos demais autônomos. “Não tem como calcular. Em um mês, recebemos 15% a menos. Em outro, 20% a mais”.
Ele trabalha junto apenas do filho André Vallim Augusto, de 30 anos, sócio-proprietário da distribuidora. Por conta da incerteza com relação aos lucros, ambos evitam compras por prestação. “Não podemos assumir um compromisso. E também já temos nossas despesas do dia a dia no trabalho, como combustível, pneu…”, afirmou.
Eles ainda necessitam de um cuidado a mais devido à ausência do 13º salário, pois este auxilia no pagamento de despesas como IPVA e IPTU. “Pagamos nos ‘trancos e barrancos’ (risos). Mas, a partir de setembro ou outubro, já damos uma segurada (no dinheiro), porque as contas pesam em janeiro”.
Sem direito a férias, os microempresários também guardam dinheiro para um repouso no intervalo das festas de fim de ano. “Procuramos fazer uma reserva para dar uma descansada, uma respirada no fim do ano. Normalmente paramos por uma semana, entre o Natal e o Ano Novo”, informou.
Segundo Ademar, a crise atual influencia na administração das finanças. “A crise tem afetado todo mundo com essa alta inflação”. Além de todos os problemas rotineiros, há a possibilidade de imprevistos como, por exemplo, doenças.
“O autônomo não pode ficar doente e faltar do trabalho. Caso contrário, não vende, não presta o serviço e não recebe. Isso afeta diretamente o seu fluxo de caixa”, relata Lélio Braga Calhau, promotor de Justiça de Defesa do Consumidor do Ministério Público de Minas Gerais e coordenador do site Educação Financeira para Todos, no artigo “Cinco dicas de como o autônomo deve administrar seu dinheiro”.
Em caso de ausência no trabalho, uma parceria com colegas de profissão aparece como a melhor alternativa para supri-la, pois, assim, estes serviriam como substitutos. “Dependendo da atividade, ter parceiros que façam a mesma atividade com a mesma qualidade do serviço pode ser um diferencial em uma ausência não planejada. Isso se chama fidelização. Com toda certeza, gera confiança e, inclusive, possíveis novos clientes”, disse o administrador de empresas Cesar Vendrame, sócio-proprietário da Indicação Consultoria em Capital Humano.
DICAS — A primeira sugestão citada por Calhau no texto é: “não misture as despesas pessoais com as despesas de sua atividade profissional”. De acordo com ele, a mescla dos gastos causa confusões e descontrole. Na sequência, o promotor alerta: “seja cauteloso financeiramente” e “tenha uma reserva financeira”.
Ele recomenda, então, o depósito de determinados valores em cadernetas de poupança a cada mês. As demais orientações são: “esteja preparado para crises financeiras” e “recolha as contribuições para a previdência pública”.
“Indico que o autônomo tenha uma média de três a seis vezes o valor de suas despesas mensais para momentos de crise. Se ficar desempregado, bater uma crise, acontecer algum acidente ou problema grave de saúde, há uma chance boa de você conseguir se reorganizar com essa reserva separada”.
Para Vendrame, o uso de planilhas também ajuda na organização financeira, principalmente quando constata-se um prejuízo. “Se o valor for positivo, é necessário poupar um percentual do ganho para gerar mais segurança financeira em caso de qualquer situação na qual ele fique impossibilitado de exercer sua profissão. Se for negativo, vale repensar o que pode estar dando de errado. Uma planilha com todos os recebimentos e despesas já ajudará muito nesta análise”.
Calhau ainda destacou a importância de planejamentos econômicos para, no fim das contas, os autônomos terem estabilidade. “O autônomo, mais do que todos, deve se organizar e nos tempos bons tentar fazer a maior parte de sua reserva financeira, especialmente em aplicações de renda fixa. Não é fácil montar uma estratégia para economizar, mas, se começar a ser construída com um prazo maior, ela pode ser alcançada. Pense sempre na sua estratégia financeira, lembrando que você tem objetivos de curto, médio e longo prazo. Seu futuro agradece”.















